terça-feira, agosto 16, 2011

Uma flor pra minha mãe


Hoje minha mãe estaria completando 86 anos. E ela gostaria  muito de chegar aos 86, aos 96, aos 106. Era uma pessoa com muita vontade de viver, e se conseguisse chegar aos 106 ainda acharia pouco! Certamente gostaria de mais. Era apaixonada pela vida e fazia qualquer sacrifício pra continuar vivendo. Adorava uma festa e às vezes ficava  até o fim de algum evento, apreciando danças, cantos, uma boa conversa. E se pudesse escolher, o grupo em que se sentia melhor era o formado por pessoas muito mais jovens que ela.

 Durante muitos anos, ela participou com meu pai do grupo dos italianos, em Ijuí. A cada outubro, durante a festa das etnias, não tinha dor ou cansaço que a fizesse ficar em casa.  Não era o médico que definia a data do tratamento, quando chegava a época da Fenadi - era o calendário da festa. Ela não admitia perder um só dia do evento e depois ligava, feliz, contando tudo que tinha acontecido. Era presidente de honra do seu grupo e adorava dar entrevistas para a tv, representar os italianos, participar da organização, assistir todos os shows, saber de tudo que acontecia no parque onde se realiza a festa. Casamentos, formaturas, aniversários, e lá estava a Nahyr, de roupa nova, cabelo arrumado e unhas pintadas.


No último verão, quando passou um mês aqui em casa, ficava até bem tarde conversando e ouvindo as conversas dos netos. Um dia meu filho mais novo me disse: "Mãe, já era madrugada, estávamos cansados, com sono, jogamos todos os joguinhos que tínhamos em casa, não tínhamos mais assunto, e a vó continuava bem acordada e falante. Ninguém tinha coragem de dizer vou dormir, porque ela estava firme". E de manhã, estava pronta pra tomar o café da manhã com os netos, sempre cheia de assunto. Magrinha, com 85 anos, lutando há 13 contra o câncer e firme! Sem reclamar de dor. Adorava vir para a praia, e não admitia um verão sem ver o mar. E se sentia muito bem com  gente, com agitação.

 Brigava pelo Internacional, seu time do coração e, se fosse dia de jogo, não desgrudava de seu rádio de pilhas. Vaidosa, não saía sem um batom vermelho nos lábios, brincos e anéis. Adorava ir ao supermercado e achava motivo pra ir todos os dias. Gostava de novidades e queria comprar o que lhe parecia moderno e interessante. Geralmente nem era pra usar, era pra ter. E quando foi, há muitos anos atrás, com o pai escolher um lugar no cemitério,  achou um  ao lado de uma das ruas de maior movimento na cidade. E à sombra de uma árvore que na primavera e no verão se cobre de flores amarelas. Da mesma cor da árvore que tinha na frente de sua casa.

 Foi pra lá em abril, no dia seguinte à Páscoa, carregada pelos seis netos homens. Mas, como disse minha irmã, não é ela que está lá. E nós sabemos: minha mãe está na memória de todos nós que convivemos, sofremos e nos alegramos com ela. Hoje ela estaria organizando uma festa para celebrar seu aniversário. Isto não podemos mais comemorar. Mas podemos usar o presente que ela nos deixou: ter um grande amor pela vida e lutar sempre.






21 comentários:

Marilia Baunilha e Patch disse...

Que relato emocionado e emocionante! Grande exemplo, sua mãe, Beti!
Lindo!

Beijos,

Eneida

Princesse Sofia disse...

Ai Beti fiquei aqui emocionada....
Beijo grande grande

Mina disse...

Que bela homenagem este post, Beti, fiquei muito emocionada com lágrimas nos olhos.
Com certeza ela está comemorando o aniversário com muita alegria e será sempre lembrada por esta linda família.
Um beijo no seu coração, com carinho,
Mina

Rosana Sperotto disse...

Emocionou-me tanto, tanto, Beti.O espírito vibrante das leoninas, da tua e da minha mãe, é mesmo um presente, um bem de raiz que agradeceremos para sempre. Às voltas com a minha, doentinha, a cada dia reconheço mais esse seu gosto pela vida, mesmo quando ela se restringe muito, mas fica o principal: o amor. Abraço grandão, querida!

Vanessa Maurer disse...

Que post mais amado minha amiga, é de se emocionar muito!

Que lá da pátria espiritual, ela possa sentir todo o amor que vocês emanarem neste lindo dia!

Muitos beijos

Marcia Accioly disse...

Olá Beti,

Um belo e tocante comentário que me fez lembrar minha mãe - já não mais neste plano - e do poema de Vinícius de Moraes que fala das mães: Por que Deus permite que as mães vão-se embora... numa das estrofes registra o poeta: "morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígios". Na realidade, as mães ficam eternalizadas no DNA das gerações que as sucedem e que guardam no coração todos os exemplos e ensinamentos que elas legaram

Pequena Artesã disse...

Beti, muito lindo seu post...
A sua mãe com certeza era uma pessoa muito especial, é tão raro ver uma pessoa com tanta luz e vontade de viver. Vc tem razão a sua verdadeira mãe é aquela que está no seu coração e nas suas lembranças...Seja feliz...Bjs

disse...

Que linda homenagem para a sua mãezinha... Ela foi uma grande vencedora...
Parabéns por ter tido uma mulher tão forte como mãe e professora da vida...
Um beijo!!!

Fatima Guimaraes disse...

Uma Bela homenagem...com certeza ela deve estar muito orgulhosa de voce.
Beijos

Regina disse...

Nossa!!! Que belas palavras,até me arrepiei!!! Realmente sua mãe era muito querida por vcs! Beijos.

Rita Copetti de Queiroz disse...

Essa era a vó! Feliz Aniversário pra vó que com certeza esta em algum lugar vivendo, porque viver era o que ela mais gostava!

A despedida foi rápida, e nós (eu e meus irmãos) já estavamos prontos pra essa partida. Acho que foi a vó que nos preparou nesse último verão, ficando todos os dias até tarde conosco e participando do chimarrão da manhã. Acho que a vó se divertiu nos ultimos anos, viveu bastante!
A historia do cemitério é verdade, e acreditem, ela contava para todos que tinha escolhido um lugar muito bonito!
um beijo pra vó!

Ti disse...

*emocionei!
Lindo Beti...tenho certeza de que a Mamma está organizando uma Linda Festa lá em cima Hoje!!! Beijo no Cuore!

sergio disse...

Lindo beti, bem lembrada as peripecias... beijos

Lena disse...

Bete, é isso mesmo!!!!!!!!!!!!
Hoje ao meio dia fui lá no cemitério falar com ela e disse -lhe que eu contaria pras minhas netas - as tres bisnetas que ela teve antes de morrer -o quanto ela gostava de viver, como gostava de se enfeitar. E como eu dizia pra nossa mãe- as bisnetas fazem que nem ela pra se enfeitar - com tudo muito colorido, muito alegre e com prazer da vida. Hoje lá no ceu ela tá a fazendo a festa e sabe que nós também.
Lena

lu pietra disse...

Bete....a saudade que bate na gente depois que elas se vão é enorme...por isso temos que homenagear sempre aquelas que tantos exemplos bonitos nos deram e com tanto amor nos cuidaram....linda sua homenagem....tenho certeza que ela esta feliz....que os anjos iluminem a voce e sua familia....e que sempre deem luz para o novo caminhar de sua mãe.

beijos.

Patrícia disse...

Que lindo Beti... Minha avozinha (que tb era gaúcha) chegou aos 82, nasceu e morreu em Canoas e eu, como estou em Curitiba, não a vi nos últimos 2 anos antes de ela falecer... mas lembro com imensa saudade das suas comidas, suas conversas intermináveis (falava o tempo todo, mesmo sozinha!) e do seu "guria da vó", como me chamava. Essas coisas ficam pra sempre. Beijo grande!

A Casca da Cigarra disse...

Água nos olhos...

Ana Paula R. Portela disse...

Ainda bem que eles nos deixam essas mensagens, essa força. Assim podemos continuar nossos caminhos, como eles gostariam.
Um beijo querida.

sonia schneider disse...

Oi Beti,

Literalmente com lágrimas nos olhos deixo uma msg de pesar embora saiba que ela, sua mãe, representou mais alegrias que sofrimentos!!!!
Abraços e que ela sempre lhe traga boas lembranças!
Amem!

Elô Bueno disse...

Ela deixou lembranças boas! Isso é o que vale!
Beti, um beijo bem carinhoso pra vc!

Anônimo disse...

Ola Beti do chá de baunilha...
escrevo assim para vc lembrar de mim, sua 'amiga' do FB, bem Beti perdi minha mãe fisicamente há muitos anos...tinha 19 e não fazia na epoca a menor ideia do que isso iria significar em minha vida.
agora entrando em sua blog por outro motivo me deparo com essa sua mensagem...lagrimas nos olhos..
muita coisa passei algumas superei outras talvez nunca supere, mas as lembranças, a energia de minhas filhas tão parecidas com minha mãe...
um grande abraço pra voce,
Cris Cris